Pode ler sem medo de spoilers

Alma (Rosa Salazar) é uma mulher de 28 anos que ainda não se estabeleceu na vida. Ela sofre um sério acidente de carro que a coloca em coma. Quando ela desperta descobre que tem algo muito errado com o fluxo de tempo ao redor dela.

Esse é mais ou menos o ponto de partido dessa série animada em rotoscopia (depois de filmada desenha-se por cima), mas eu diria que se divide em duas abordagens.

A segunda abordagem é o questionamento da nossa abordagem da realidade e isso justifica a escolha da rotoscopia que dá um ar irreal para a série toda. Além disso os cenários pintados a óleo também sugerem, desconfio, que temos tido uma visão muito pragmática da realidade quando devíamos manter nossa ligação com a arte e com a beleza estética da simples realidade cotidiana.

Essa segunda abordagem é a que torna a série uma joia pois foge do lugar comum de outras narrativas que olham para a realidade por lentes mais livres.

É um desafio falar sobre essa peculiaridade da série sem fazer spoilers…

A certa altura me flagrei divagando sobre filosofia da ciência e sobre estarmos presos à visão da realidade que a própria natureza das nossas formas físicas determina como possível. Uma consciência que fosse energética, por exemplo, mal notaria a existência da matéria enquanto nós mal percebemos a existência da energia.

Dependendo da sua jornada pelo mundo seus devaneios podem ser completamente diferentes e esse é o ponto: Undone é uma obra simbólica.

No entanto tem a primeira abordagem que é o fio real da história que nos oferece uma âncora para a realidade e, por si, é uma ótima história.

Alma está procurando seu lugar, ou melhor, está procurando sua história. Ela sabe de onde veio, mas para onde deseja ir? Para onde é capaz de ir? Ela deve mergulhar numa rotina como a maioria das outras pessoas fazem para encontrar estabilidade e tranquilidade? Ela deve se manter livre e solta pelo mundo? Aliás sabemos mesmo de onde viemos? Conhecemos as raízes da nossa cultura e dos nosso genes?

Alma tem uma família muito parecida com muitas outras, talvez com a sua. Você já teve dúvida se te amavam ou se somente queriam que você demonstrasse amor por elas? Pense nas diversas e caóticas relações familiares e nas dúvidas que elas nos geram. É isso que encontramos nessa que considero a primeira abordagem da série, um tipo de solo sobre o qual se constrói a outra narrativa filosófica, mas também conectada à família.

A criação é de Raphael Bob-Waksberg (BoJack Horseman) e Kate Purdy, o que já explica uma boa parte da qualidade tanto da ideia original quanto do roteiro. Pode ser uma série que acaba sendo mais de nicho, no entanto temos visto muitas criações surpreendentemente complexas e incomuns se tornando populares como a própria Bojack Horseman, mas também Hora da Aventura e Rick e Morty.

Ah! Rosa Salazar, além de ter uma voz ímpar e uma qualidade de sentimento dignas de nota, tem se mostrado capaz de imprimir fortes emoções em personagens digitalmente modificados. Ela está muito bem no papel.

Assista! Vale a pena. A produção é do Amazon Prime Video.

Depois de assistir vale a pena dar uma olhada nesse making of da rotoscopia:

Essa entrevista com a produtora Kade Purdy e Rosa Salazar também é interessante: