Teaser: vou falar do fim de uma era, do caos e do início de outra era através das bienais do livro. Uma história tão intensa, ou até mais, que a virada do século XIX para o XX. Vc já deu uma olhada em como era o século XIX?
Atualizando horas depois: Esquece o post! Vai direto lá para o final em Ataque à Bienal!
O meu negócio com os livros são as histórias e conhecimento que eles reúnem e com as palavras lapidadas, sim, porque algumas vezes o conhecimento ou as histórias nem me surpreendem tanto, mas as escolhas de ritmos e combinação das palavras já me bastam.
Isso quer dizer que não sou um profissional do livro, sou um leitor voraz ainda que não tenha lido no mesmo ritmo nos últimos anos.
É importante dizer isso para estabelecer meu relacionamento com as Bienais do Livro (fui a muitas das de São Paulo também) antes de lhe oferecer a minha história das bienais.
Antes de mais nada é uma história que não é só minha, mas também do meu pequeno núcleo familiar composto por companheira de vida e amigos.
Lembro vagamente dela, a bienal, ter sido pequena, mas já há muito tempo ela é assim como a imagem que ilustra esse post: Caótica e vasta. Repleta de toda sorte de pessoas. As mudanças demográficas a gente sente apenas nos tipos raros que antigamente pareciam existir apenas de dois em dois anos.
Por muito tempo as Bienais eram a Alexandria de quem garimpava livros, que não se satisfazia com os best sellers e buscava pequenos tesouros como A Profecia das Pedras, de Flávia Bujor, edições audaciosas de Dom Quixote, novos e novas autoras.
Até que teve um dia que assisti um painel que reuniu a blogueira Ana Paula Maia, que estava publicando seu blog em forma de livro, o instigante Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e autores consagrados, mas estou adiantando as coisas.
Era assim.
Passávamos 12h na bienal. Por 10 horas vasculávamos cada estande, conhecíamos editoras novas, encontrávamos livros esgotados e esbarrávamos em estranhos que se tornavam companheiros casuais de exploração para nunca mais nos vermos. Assim como existem namoros de verão existiam, ao menos para nós, amizades de bienal.
Alguns poucos amigos tiveram a mesma paixão para nos acompanhar nessas empreitadas cansativas.
No final das 10 horas sentávamos no chão com uma lista de mais de 70 livros que reduzíamos a 15 ou 20 para então refazermos o circuito ao contrário comprando-os.
Não foi por um acaso que por anos 2/3 das nossas mudanças eram caixas de livros… Muitos perdidos em um ataque de cupins, mas não quero falar nisso.
No começo a voz das bienais era a cacofonia de editoras grandes ou independentes e das pessoas que lotavam seus corredores: professores e professoras levando seus alunos, famílias de pais e mães orgulhosos do interesse dos filhos e filhas pela literatura, nerds que encontravam ali, e somente ali, compêndios de mitologia, livros jogo e outras preciosidades que seria inútil tentar enumerar. Vou citar apenas uma lembrança que me tomou de assalto agora, o editor de uma pequena editora de Brasília chamada Toth que conhecemos lá animado por ter achado duas preciosidades com lâminas de papiros egípcios.
Então veio uma mudança.
A bienal começou a ter painéis, mesas redondas, palestras e outros eventos culturais, o que era ótimo.
Para falar a verdade é possível que tivesse antes, mas eu não notava.
De qualquer forma isso foi mudando o perfil da feira… Verdade! Já foi chamada de “feira do livro”, mas isso não é tão importante.
Antes as bienais pareciam atender a dois públicos: nerds que buscavam raridades e quem buscava em um lugar só, e mais barato, livros populares.
Nessa época o público “não nerd” começou a se aproximar daquelas pessoas estranhas que buscavam mais do que uma leitura casual.
Claro que começaram a surgir os pop escritores que juntavam multidões de adolescentes apaixonados e me pergunto se isso cresceu junto com o declínio da manhã de desenhos da TV brasileira, talvez já estivéssemos sentindo o movimento de uma cultura que orbitava a TV para um como outras fontes de atração da atenção, ainda que a Internet ainda estivesse longe.
Ah! Ela, a Internet, foi o próximo grande degrau!
Em uma ou duas bienais quase todo o sentido delas desapareceu: a gente podia pesquisar online por qualquer livro que quiséssemos a qualquer momento e muitas vezes comprar mais barato.
A Bienal se transformou junto trazendo tentativas de inovação como a impressão por demanda (que ainda é um relativo mistério para mim o por quê dela não ter se tornado um padrão), publicações de blogueiros (tinha até plataforma online para transformar blog em livro), estandes temáticos e muito mais espetáculo em torno de novos títulos que prometiam ser o “hit” do ano.
Foi nessa época que a gente pulou algumas bienais porque começamos a não ver muito sentido naquilo, mas dava saudades!
Foram muitas micromudanças a cada dois anos, mas por um tempo tivemos um certo padrão de “hipe”. Podiam ser youtubers, uma onda de livros de colorir, estandes temáticos enormes e caros para tentar vender muitos livros do carro chefe da editora.
O mercado já estava entrando e mergulhando na crise que até hoje ainda não atingiu o fundo.
Esse ano no entanto vimos outra mudança: parece que as editoras estão abandonando o modelo “vender o máximo do carro chefe” para adotar um que dê mais visibilidade à sua diversidade de títulos.
Em tempos de polarização talvez esse seja um sinal precoce da mudança da sociedade que não aguenta mais uma visão binária do mundo e busca mais diversidade.
Pelo menos em algumas editoras parece que estava dando certo e mais títulos estavam sendo vendidos e em maior quantidade. Essa é uma forma de criar leitores muito mais eficiente do que se agarrar desesperadamente a um título, autor ou estilo de livro (a onda dos de colorir ainda me parece uma realidade alternativa distópica que talvez tenha a ver com o caos político que veio depois — Isso é uma ironia).
Por um tempo, quando o mercado de livros online ficou forte e vasto, tive receio que as bienais acabassem, mas claro que não, elas precisam se reinventar (acrescentar tradutores, capistas, revisores e outras categorias de profissionais do mercado do livro no cadastro de gratuidade seria um bom sinal) para continuar sendo um foco capaz de reunir tanto a minoria nerd quanto a maioria que, em muitos aspectos, se aproxima dos antigos estereótipos de nerd.
Nessa bienal…
Sou apenas leitor, mas minha esposa, aquela mesma que ia comigo há mais de 30 anos, é tradutora e aproveitamos para visitar pessoas amigas editoras e tradutoras.
Então chegamos cedo para ver o Leonardo Alves (tradutor) e a Mikann (youtuber) falando sobe a obra e mundos de George R.R. Martin.

Foi bem interessante mesmo eu não curtindo muito a série e não tendo lido os livros.
Me rendeu uma reflexão sobre a importância da tradução.
O Leo (marido de uma amiga) estava falando sobre a estranheza de alguns fãs com a tradução de nomes e percebi que, em geral, quando o fã acha mais “maneiro” river Run do que rio corredor (tradução amadora minha) na verdade ele não está vivenciando a obra como um leitor nativo. É justamente nesses estranhamentos que a tradução se mostra mais importante e percebemos mais um sintoma do nosso tão falado complexo de vira-latas.

Também encontramos com a Ana Cristina Rodrigues, da editora Lendari, criadora de um mundo fantástico intrigante e vasto. Compramos inclusive o Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados para mergulhar mais fundo nesse universo (que merecia virar série, hein Amazon? Né Netiflix?)
Também descobri que preciso ser mais blogueirinho pq quase não tirei fotos! Nem com a guria Vivi Maurey que é uma das minhas amiga mais queridas e trabalha atualmente na Ubook que tem um estande bem identificável no pavilhão verde.
Ah! Mas talvez o momento mais wow! tenha sido um encontro casual…
Estávamos procurando o estande da Vivi quando vi de soslaio um senhor sentado entre um punhado de pessoas autografando seu livro.
Parei e apontei para ele como uma das réplicas de Invasores de Corpos e balbuciei “Mô! É o…?”
— É ele mesmo! O Boff!!!
A animação dela é indescritível porque um dos livros dele, A Águia e a Galinha, teve um impacto forte na nossa história e nunca tínhamos encontrado com ele.

A animação dela é indescritível! Um dos livros dele, A Águia e a Galinha, teve um impacto forte na nossa história e nunca tínhamos encontrado com o Boff!
Compramos a edição de 20 anos, pegamos autógrafo e até filmei (tá guardado)!
Muita coisa acontece em uma bienal e vale a pena ir vários dias.
Fiquei sabendo por exemplo do morador de rua que saiu dessa condição e conta sua história em um livro sendo lançado nessa bienal: A Vida depois das marquises.
Ataque à Bienal
Enquanto escrevo esse post fico sabendo que o prefeito da cidade, um teocrata cujo nome acho que não merece ser lembrado, tentou coagir a bienal a recolher um livro em quadrinhos que continha um beijo entre dois homens.
Felizmente além dela se recusar a edição foi toda vendida (vou entrar na fila para comprar alguns da próxima edição para dar de presente).
A novela gráfica é Vingadores, a cruzada das crianças e essa é a página em questão:

Vamos focar no positivo: menos desses políticos e moralistas podres e mais amor, ciência, cultura, diversidade, respeito, maturidade, filosofia, questionamento…
O canal Vá Ler um Livro fez um vídeo e uma lista de recomendações de leituras LGBTQI+:
No Twitter o Aos Fatos fez uma sequência sobre a falácia da ideologia de gênero:
Pode ser útil também o post que escrevi em 2015: Anatomia de uma falácia – Ideologia de Gênero.
Leon e Nilce, do canal Cadê a Chave, explicaram como a estratégia política do prefeito visa enganar justamente seus eleitores prometendo entregar o moralismo que eles esperam já que não pode buscar votos pela competência como político, mas recua logo em seguida para tentar evitar a perda de muitos eleitores que não concordam com a agenda moralista.
Passe para os conhecidos e amigos moralistas que estão sendo usados e ludibriados: O Problema da censura.
O Meteoro Brasil alerta para a normalização da censura antes mesmo que normalizemos a democracia:
Tulio Viana, um jurista respeitado, fez a live abaixo falando sobre bases legais ou falta delas:
Reações
A Publishnews publicou o artigo Depois de censura de Crivella, autores e editoras preparam conta-ataque.
Nele ficamos sabendo que o Felipe Netto comprará e distribuirá gratuitamente amanhã ao meio dia 10 mil livros LGBTQI+ incluindo Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello (excelente e quase profético), Com amor, Simon de Becky Albertally e tradução de Regiane Winarski e Confissões de um garoto tímido, nerd e (ligeiramente) apaixonado, de Thalita Rebouças.
Várias editoras colocaram seus acervos LGBTQI+ em destaque e/ou fizeram promoções.
Além disso está sendo marcado um “beijato” também amanhã (sábado) às 19h na arena Sem Filtro.
Acontecerão pelo menos dois painéis sobre literatura LGBTQI+ nesse final de semana e certamente o ataque sofrido aquecerá os debates e lhes dará combustível para mostrar como é importante essa literatura para preservar a vida e as famílias, afinal a homossexualidade é parte da natureza (não só humana) e perdemos vidas que não resistem à passagem pela adolescência sem encontrar onde entender o que está acontecendo com elas e, até mesmo dentro das suas famílias, muitas vezes só encontram ódio.
Sábado, 7 de setembro
Em distopias como O Conto da Aia o estado totalitário infiltra delatores entre a população para espalhar o terror e romper o tecido social.
Hoje a prefeitura enviou fiscais não identificados para a Bienal, mas as pessoas o efeito foi o aumento da resistência.
Em 19 Bienais nunca tinha visto algo assim:
“Amanhã, apesar de você, será outro dia”. Reação de diversos autores nacionais. É com muita felicidade que vejo vários amigos e outros que admiro tanto fazendo uma manifestação poética como essa!
Em tudo que li senti falta de uma indicação de obra que se enquadra no estilo, o lindo A Bela e a Adormecida. Recomendo!
Comunicado oficial
A Bienal do Livro se mobilizou para obter um mandato de segurança se protegendo de ataques ilegais e emitiu esse comunicado oficial:
Reação do ilustrador no Instagram:
Artigos
O Nexo Jornal fez uma cobertura bem completa incluindo considerações de juristas mostrando que a ação foi ilegal (que foi imoral a gente sabe): O que há de ilegal na censura de Crivella na Bienal do Livro (também no meu clipping).
Reações registradas pela Publishnews: Depois de censura de Crivella, autores e editoras preparam conta-ataque.
Revistas internacionais como a The Hollywood Reporter já ecoam a notícia: ‘Avengers’ Comic Featuring Gay Kiss Banned by Rio de Janeiro Authorities.
A revista Jamesons fez um artigo bem completo que, além de resumir o acontecido mostrando o documento da prefeitura, faz um resumo dos personagens LGBTQI+ nos quadrinhos Marvel desde o século passado e mostra a reação dos autores: Censura, homofobia e fakenews: Entenda a situação envolvendo a prefeitura do Rio e a HQ dos Vingadores.
Procuradoria-Geral da República pede ao STF que impeça censura na Bienal. Também no clipping.
Obras LGBTQI+ na Amazon (de graça 8/09/2019)
LITERATURA LGBTQIA+
DE GRAÇA NA AMAZON – 08/09
NÃO VAI TER CENSURA
- Querido Ex: https://www.amazon.com.br/dp/B07HSP6YSX
- Se Tudo Der Errado Amanhã: https://www.amazon.com.br/dp/B07KX76PZX
- Todo Clichê de Amor é Amor: https://www.amazon.com.br/dp/B07VRVZRC7
- Não Inclui Manual de Instruções: https://www.amazon.com.br/dp/B07PRDLHX1
- Orgulho de Ser: https://www.amazon.com.br/dp/B07H13JL7R
- Resilientes: https://www.amazon.com.br/dp/B07WFN2CDN
- Quem Rabiscou Aqui?: https://www.amazon.com.br/dp/B07WGXGJVG
- Cor Não Tem Gênero: https://www.amazon.com.br/dp/B07QL3RPD6
- As Luzes Em Mim: https://www.amazon.com.br/dp/B07JH8BSQ4
- Quando Você Perde Também Ganha: https://www.amazon.com.br/dp/B07VV72V58
- Reflexos de Um Amor do Passado: https://www.amazon.com.br/dp/B01N0REBR5
- Quero Andar de Mãos Dadas: https://www.amazon.com.br/dp/B01MV30D78
- Contra Tempo: https://www.amazon.com.br/dp/B074VDTJHK
- Os Reis da Festa: https://www.amazon.com.br/dp/B077GFCBZL
- No Meu Lugar: https://www.amazon.com.br/dp/B077PGLCDC
- Um Respingo de Tinta: https://www.amazon.com.br/dp/B07LB4Q72T
- Box Trilogia Um Amor: https://www.amazon.com.br/dp/B07G8898FG
- Sob a Mesma Constelação: https://www.amazon.com.br/dp/B07CHRC93G
- Vamos Nos Permitir: https://www.amazon.com.br/dp/B07HGJMH98
- Autômato: https://www.amazon.com.br/dp/B07FR6L2WT
- Apaixonado, Indomável: https://www.amazon.com.br/dp/B07TB1B3SP
- Apenas Amor: https://www.amazon.com.br/dp/B076J9W9MJ