O vento vem pela madrugada causando estrondos de portas, tremores de janelas, miudezas correndo pelo corredor. O vento vem espantando o sol dos últimos dias e ameaçando momentos de tempestade.
“O vento traz augúrios” dizia-se no passado e sempre achávamos que eram maus augúrios.
A manhã de domingo dá os primeiros passos trôpegos como elas costumam fazer nos domingos e estamos nos século XXI onde augúrios fazem parte apenas do passado ou dos lunáticos.
Aspiramos a casa coberta de pelos e miudezas que voaram pela madrugada deixando ontem no passado mais distante do que está de fato.
O telefone fixo toca… Já é estranho ainda termos um telefone fixo, mas ele é o telégrafo seguro da sogra que mora conosco e concordou em ser protegida de outros augúrios, os de lunáticos, que não esperam ventanias ou tempestades e fluem continuamente pela infinita pilha de mensagens que surgem ao encostar o dedo no pequeno símbolo verde em uma tela de vidro iluminada pela magia da eletricidade.
É o cunhado. No telefone. “Minha esposa está com uma amiga na Cobal do Forte. Posso tomar um café aí mãe?”
Nos últimos 19 meses ele não viu a mãe mais de 5 vezes por minutos inseguros na portaria do prédio. Com vontade de abraçar e não poder mesmo não vendo o agente imperceptível que transforma o nosso calor humano, o próprio ar que sai dos nossos pulmões, em um risco para os outros. Nossa razão nos olha de cima julgando a fragilidade das nossas emoções que insistem em não entender a necessidade de distância.
O vento da pandemia não soprava há dois meses quando tive que levar nossa pequena cachorrinha na veterinária. Sequer tinha máscara e improvisei com uma camisa cortada que minha esposa preparou para mim e segui pela rua entre me sentindo ridículo e inseguro. Escapei ainda por muitos meses da chuva que o vento trazia e tive sorte de me molhar pouco ainda que, onze meses depois, ainda me falte algumas faixas dos espectros de sabores e aromas.
Há mais de um ano nos acostumamos a manter nariz e boca sob um bico de pato azul torcido, as tais PFF2. Nos últimos três meses arriscamos tímidos encontros a céu aberto com amizades também zelosas e atentas aos olhares de julgamento da razão, mas é a primeira vez que recebemos alguém para um café, no entanto não seria justo negar isso a um filho que tem carinho pela mãe.
Ventos… Lembro das folhas dançando ao vento de outono (ainda que estejamos no início da primavera) ou das mesmas folhas levadas pelas correntes do rio que as leva ao mar ou a algum lago onde se aglomerarão a muitas outras folhas e vidas flutuantes.
Por umas duas horas somos nós que giramos ao vento, colocamos máscara, tiramos máscara – como dizer a uma senhora de mais de oitenta anos que ela deve ficar de máscara se o filho estiver falando enquanto toma um café? – nos aproximamos, nos afastamos sem falar no intruso invisível que, esperamos, não esteja entre nossas vozes e memórias.
Assim como nos falham as memórias porque elas são assim – as memórias – sempre se transformando sem que notemos, nos falham os cuidados… Provavelmente excessivos, mas a mesma emoção que tem dificuldade em entender os riscos, não escuta a razão quando esta lhe diz que o risco é pequeno.
As tardes não precisavam ser assim tivéssemos coletivamente respeitado os ventos que sopraram há 19 meses levando a crença – errada – da pureza da nossa atmosfera.
Me sento para escrever e pergunto às palavras na tela quando conversarei animadamente com alguém, ambos sem véus cobrindo nossos rostos e sem que ventos soprem nuvens cinzentas sob nossas pupilas assustando-nos com os ricos de contágios conhecidos ou desconhecidos…
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