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"Não acredito que a arte por si só mude as pessoas. Mas a consciência, que é a vida da mente, é a força crítica para mudanças, e a arte ajuda a formar a consciência."
Tony Kushner , dramaturgo
 

Arte que não imita a vida PDF Print E-mail
Written by Roney Belhassof   
Saturday, 23 August 2003

Dizem que a vida imita a arte brincado com o fato da arte sempre ter tentado imitar a vida. Pelo menos é o senso comum, entretanto será mesmo que imitação é a aspiração da arte? Uma mímica tosca da vida?

Ao ver obras como O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Macha, Adaptação, Viagem de Chihiro, Veludo Azul e Central do Brasil não temos como não pensar que a arte é uma lente sobre a vida; revelando suas nuances interpretando suas matizes. Ao menos a arte que fica, que atravessa décadas, algumas vezes séculos.

A sétima arte, é como chamamos o cinema, mas nem todo texto é literário (insisto que Harry Potter é história e não literatura) assim como nem todo cinema é arte.


Contar uma história é arte, uma piada? O que nos distrai é arte?

A era das bolsas de valores, das corporações milionárias e da corrida por lucros criou uma indústria que tenta agradar a todos, oferecer uma fuga para a realidade supostamente ruim. Vamos ao cinema e não é nossa cara que está lá! Pior do que isso, freqüentemente vemos a reafirmação do preconceito e do belicismo que perpetuam os nossos problemas diários pois este tipo de história vende com mais facilidade.

Estão fazendo das nossas telas de cinema arenas de gladiadores e praças de crucificação! Seis geração atrás bruxas eram queimadas em fogueiras e a cidade ia assistir cuspindo no demônio que era expurgado! Uma demonstração de selvageria que agora repetimos ao ir ao cinema ver o bandido ser explodido, desmembrado, incendiado ou devorado!

O problema de tudo isso é que a arte sempre foi precursora da libertação quando nos fazia sonhar e ver a realidade por ângulos incomuns oferecendo uma alternativa real, e não uma fuga ilusória, para as tensões cotidianas! A dita arte contemporânea tem se transformado em uma droga que gera dependência! Uma oferta de fuga que acaba nos condenando ao ciclo vicioso de uma vida sem sentido!

Nada contra o entretenimento! Depois de uma maratona nos estiramos na areia para beber água de coco, mas é necessário rever os momentos difíceis da corrida para não cometer os mesmos erros duas vezes, para ver sentido em tanta corrida e para encontrar em nosso cotidiano as aventuras que nenhum Indiana Jones é capaz de enfrentar e ter ogulho de ser capaz de superá-las!

A arte não deve imitar a vida, ela tem o dever de interpretá-la, de nos ajudar a mergulhar nela! De imortalizar as metáforas oníricas que decifram seus significados mais profundos. E nem por isso precisa ser depressiva!

Temos "Fast Food, Fast Women", "Chegadas e Partidas", "Senhor dos Anéis", "O Fabulos Destino de Amélie Poulain" e tantos outros filmes que cumprem bem o papel de arte e ainda são para cima! só para falar de alguns que não são nacionais.

Festival BR de Cinema Infantil

Embora o projeto não pareça tão bom quanto o festival de Florianópolis que já comentei aqui, todo projeto deste tipo merece atenção. Afinal é o primeiro festival a viajar o país inteiro tentando desenvolver os hábitos cinematográficos das nossas crianças!

São filmes da Holanda, Dinamarca e Brasil entre outros e a direção é da Carla Camurati (que sempre me passou a impressão de que trabalha com paixão), mas me parece que não houve o cuidado de aproveitar as boas idéias do festival de Florianópolis.

Não vi nada sobre sessões gratuitas ou debates após as sessões e a seleção de filmes parece dar uma preferência a efeitos especiais. Quando a história é boa os efeitos se tornam totalmente irrelevantes para as crianças e suas férteis imaginações!

Mas esta é uma opnião apressada de quem ainda não viu os filmes e julgou apenas pelo site oficial. E, mesmo com os possíveis problemas, certamente é uma melhor opção que os apressados filmes da Xuxa...

Adaptação

Sempre tem os que não gostam, sempre tem os que odeiam, a única coisa que raramente acontece a uma obra de arte é agradar a todos; em geral elas até incomodam mais do que agradam. É uma característica dos tempos difícies, quando não há tempo para perder com arte-entretenimento e a arte-questionamento se torna emergencial.

Depois do louquíssimo Quero Ser John Malkovitch o  mesmo roteirista (Charlie Kaufman) faz um verdadeiro exercício de roteiro brincando com a fantasia e a realidade alucinadamente e acaba criando um dos melhores roteiros que já vi! Ele joga com os clichês criando um filme, até onde consigo me lembrar, totalmente fora dos padrões. Praticamente não há transformações dos personagens, não há bem um clímax e a história na verdade é a do sacrifício do roteirista para escrever o roteiro do próprio filme. Em suma, é como um tipo de exercício de criatividade literária e de estilo.

Somente o roteiro já faria deste um grande filme, mas, pelo menos ao meu ver, ele vai bem além ao construir personagens integrais e não os costumeiros personagens cuidadosamente encaixados em estereótipos. Outro ponto ímpar no filme é a qualidade e o ritmo das transformações que ocorrem. A maioria delas na verdade não ocorrem, estavam sempre lá, mas não as víamos. Ao mergulhar no universo de cada personagem vamos descobrindo novos matizes das suas personalidades, das suas histórias.

Há, sim, uma transformação, no entanto é tão suave quanto as que cada um de nós passa, geralmente, duas ou três vezes durante toda a vida. E mesmo assim ela fica para depois do final do filme, para ser continuada por nós mesmos em nossos devaneios.

Procurando Nemo

O que se pode esperar de um filme sobre um peixe palhaço procurando seu filho perdido no oceano?

Nada!

Era o que eu esperava, mas estava totalmente errado!

Este filme certamente é uma das melhores pérolas dos últimos tempos! Divertidíssimo, criativo, inteligente e até moralmente inspirador.

Sem estragar o prazer das surpresas que o filme nos apresenta só dá para falar que é uma história de superação, amor, dedicação, coragem e lealdade. Algo bem parecido com os preceitos de moral que andavam exilados das telas até a estréia de Senhor dos Anéis. Ok, não que não ouvesse qualquer moral nos filmes, mas era a moral vazia do politicamente correto que propõe uma moral piegas para um mundo perfeito que não existe fora dos sonhos do paraíso perdido.

Tomb Raider

Para estragar alguns tipos de filme a equipe tem que ser mesmo muito ruim! Ou tentar fazer o que não sabe fugindo da receita. Este definitivamente é o caso dos filmes de ação estadosunidenses. Não tem mistério! Basta um ou mais mocinhos ou mocinhas bonitos e sarados, personalidades um tanto rebeldes (as muito certinhas também servem), muitas explosões, situações de perigo de onde se escapa com proezas atléticas, uma trama com um mistério leve (de preferência copiado de outro filme) e um final apoteótico. Pronto! Está feito um sucesso de bilheterias, do tipo que adoro assistir e não presta para mais nada além de produzir um bocado de risadas.

O problema é que, de uns tempos para cá, alguém disse para os roteiristas de Hollywood que eles sabem fazer roteiros! Então eles fazem um esforço tremendo e acabam fazendo tudo que citei acima, mas com uma trama que acaba atrapalhando a ação sem chegar a compensar seja pela criatividade, seja pelo conteúdo.
Tomb Raider é assim! Só me divertiu porque eu me satisfaria com muito pouco, muito pouco mesmo!

A trama te dá vontade de ver um desfecho que nunca acontece e se disfarça em um mal executado final aberto. As proezas raramente são para fugir de uma situação de perigo como na excelente seqüência da invasão da mansão Croft no primeiro filme. Quase todas são brincadeiras da mocinha neste segundo filme e isto tira quase todo o atrativo das cenas.

Os absurdos são parte de um filme como este, ninguém espera que se faça uma pesquisa para saber que tubarões desaparecem por meses de regiões que sofrem terremotos; mas a coerência ainda é necessária e não faz o menor sentido a jovem, forte, hábil e invicta mocinha tenha dificuldades ao lutar com um cientista bonachão!

Por último, mas sem esgotar as falhas do fiilme, eles queimaram dois filmes em um! O Berço da Vida é assunto para um filme Inteiro e a Caixa de Pandora para outro!

Deixe para ver na sessão da tarde enquanto joga War com os amigos!

Last Updated ( Saturday, 29 October 2005 )
 
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