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Nossa espécie é um bocado indecisa! Por um lado nos incomodamos
com os limites e procuramos sempre uma nova forma de ver, um lugar mais longe
para alcançar ou um feito mais difícil para realizar. Por outro
lado parece haver um grilo falante que sussurra em nossos ouvidos motivos
para nos acomodarmos nos fazendo criar rótulos para todas as coisas
limitando nossa visão; temer os riscos das grandes viagens nos prendendo
em nossas cadeiras...
Os entusiastas da ficção científica (incluindo eu mesmo)
gostam de crer que escapam dos limites e desafiam os tabus ao se lançar
no futuro desconhecido. Mas isso nem sempre é bem assim!
Apesar dos filmes e livros mais populares de ficção científica
terem grandes méritos como Jornada nas Estrelas, Guerra nas Estrelas,
a Cidade
e as Estrelas (quanta estrela!) e Babylon 5, a dura realidade é que eles também acabam presos nos seus rótulos. Poucos são
os que conseguem ser realmente audaciosos indo onde nenhuma mente jamais foi!
Na literatura temos Ray
Brudbury e no cinema temos Andrei
Tarkovski. Não são os únicos, mas são brilhantes!
Parece haver dois tipos de ficções científicas. O primeiro,
mais comum, busca a utopia do que podemos vir a ser e mergulha nas possibilidades
da realização mais nobre dos potenciais humanos. Elas nos ajudam
a refletir sobre o que precisamos descartar para nos aproximarmos do que consideramos
mais avançado ou mais moral...
O segundo tipo é mais duro de encarar, pois ele nos coloca diante
do espelho, muitas vezes negro, onde está refletida nossa imagem com
todas as suas distorções e cicatrizes. O ambiente pode ser o
amanhã, mas os espíritos nestas histórias são
os de hoje.
Não há um estilo melhor que outro, mas vale a pena nos perguntarmos
se, ainda primitivos, somos capazes de sonhar com a utopia "certa"!
Talvez os elevados valores de moral de Jornada nas Estrelas e outros clássicos
não sejam mais do que sonhos infantis dos quais riremos dentro de 500
anos... Basta lembrar que, poucos anos atrás, moral elevada era não
rir e esconder o corpo com vergonha...
Stalker
Gravado em 1979 este é um dos melhores exemplos da ficção
científica despida de utopias. A direção de fotografia
e a força das imagens a que somos apresentados entorpece nossa mente
e nos atinge diretamente na mesma regiões que os sonhos embora o ritmo
lento possa desanimar os menos acostumados.
A história é simples e deixa os mistérios sem solução.
Muitos anos antes um meteoro ou outra coisa caiu sobre uma cidade, depois
disso coisas estranhas começaram a acontecer, pessoas sumiam e espedições
enviadas ao lugar jamais voltavam. Apenas alguns homens misteriosos, os Stalkers,
eram capazes de atravessar a zona repleta de armadilhas para a mente. Muitos
contratam os serviços dos Stalkers pois diz-se que há um quarto
no centro da zona onde os desejos podem ser realizados. Toda a história
consiste na jornada de dois homens guiados por um Stalker por dentro da zona,
mas este é um filme de diálogos e imagens, não de mistérios
desvendados.
Este tipo de filme tem um impacto diferente em cada
um que o vê. Quando o filme terminou uma imagem ficou ecoando na minha
mente... Parece que alguns passam a vida em busca de algo que não podem
encontrar enquanto outros carregam a resposta na palma da sua mão,
mas não conseguem entregar a ninguém, simplesmente porque os
outros não conseguem enxergar o que lhes é oferecido... |