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A identidade cultural se faz da ressonância de uma infinidade de vozes.
Algumas jamais são esquecidas como Shakespeare, Cervantes e Dumas.
Outras se perdem confundindo-se a outras semelhantes ou mais ruidosas. Assim
é com Kierkegaard e Sartre, assim é com Ionesco e muito do que
se fez posteriormente no teatro, na literatura e até no cinema.
Ele foi um dos criadores do teatro do absurdo, estilo praticamente desconhecido
para quem não é apaixonado por teatro e procura se informar.
Correndo o risco da simplificação, o teatro do absurdo é
o surrealismo nas artes cênicas.
Embora tudo tenha começado com a estupefação de Ionesco
diante dos diálogos sem sentido de um curso de Inglês (ele era
romeno, filho de mãe francesa) e isso tenha dado um pano de fundo linguístico
forte ao trabalho de Ionesco, a grande tônica da sua obra é a
criação de "desenhos" da realidade que beiram o devaneio
onírico. Assistir uma peça de Ionesco é como despertar
parcialmente de madrugada e caminhar na fronteira entre o sonho e a realidade.
A Lição
Encenada pela primeira vez em 1953 o medo da morte de Ionesco parece atirá-lo
no mundo dos pesadelos onde tudo começa bem e se precipita veloz e
repentinamente em direção à vergonha, humilhação
e fatalidade.
O inconsciente é um vasto território, tentar cercá-lo
entre as cercas das definições é um erro. Encerradas
nas entrelinhas há outras questões como a disputa de poder,
o conflito entre o conhecimento intuitivo e o indutivo e, curiosamente uma
vez que Ionesco tendia politicamente para a direita, a cultura facista.
Todos estes temas permanecem atuais e pertinentes, entretanto a mídia
voltou seus holofotes, como de costume, a questões que podem ser abordadas
com mais simplicidade e que não revolvam o lodo mais profundo da nossa
cultura.
Por este motivo é tão importante que peças como esta
sejam montadas novamente, principalmente em um espaço como a Bunker
(Copacabana - RJ) que fica no meio das camadas mais alternativas e, talvez,
mais aptas a reaquecer o assunto.
Para esta montagem Charles Azevedo (que assina a direção),
Cesar Bournier (premiado pelo seu trabalho nesta peça) e Alessandra
Mattos buscaram inspiração na pintura surrealista e o restante
da cenografia ousa ao conferir à peça um tom praticamente pós
moderno.
Entre o sonho, as estruturas de metal e simbolos da nossa cultura afro-brasileira
esta versão de A Lição consegue a um só tempo
respeitar o texto original e modernizar sua apresentação aproximando-o
do público moderno.
Links
Noosfera
(USP)
Ionesco.org |