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Deuses, o meu delírio PDF Print E-mail
Written by Roney Belhassof   
Wednesday, 26 September 2007
Segundo Richard Dawkins Deus é um delírio e acabo de começar a explorar os seus argumentos, mas pareceu-me útil escrever sobre como vejo a religiosidade, a fé e os Deuses até agora, antes de ser influenciado pela leitura.

A minha vida começou marcada por um encontro religioso quando eu tinha apenas 5 anos. Foi em Salvador, quando me perdi dos meus pais e passei cerca de uma hora conversando com uma freira aos pés de uma estátua de São Francisco.

O encontro foi tão marcante que convenci meus pais a voltar lá três anos depois. Pouco ou nada lembro das duas ocasiões, mas um tipo de bondade e contemplação ficaram tão marcadas em mim que decidi me batizar católico - meus pais não me batizaram para que eu fizesse a minha opção - aos 11 anos.

Pela primeira vez frequentei um curso de cristianismo para me preparar para o batismo e primeira comunhão e este foi o início do fim da minha ligação com o cristianismo pois o que eu tinha guardado daquela freira não estava nas lições que recebi.

Pouco depois, ainda aos 11, comecei a ler "Da física Clássica à Física Moderna de Einstein e Infeld" (Evolution of Physics)uma leitura que me custou quase dois anos e transformou o meu chão em uma ilusão formada de energia. Nesta época comecei a supor que o Universo fosse um sonho de Deus.

Esta é a história do nascimento da minha consciência. Antes disso eu pouco fiz e na verdade poucos instrumentos possuía para tirar as minhas próprias conclusões. Foi necessário contá-la (esta história) para chegar ao ponto que considero central na forma como vejo a espiritualidade e como acredito que seria melhor para todos.

A grande farsa da espiritualidade não é a suposição da existência de um ou mais Deuses, de um espírito que transcenda a nossa vida material ou de um sentido metafísico no Universo, a grande farsa, inimiga tanto da razão quanto da espiritualidade, é a fé.

O que separa o cético do crente não são suas opiniões a respeito do Universo, mas o seu instrumento de reflexão: enquanto o primeiro descarta a fé o segundo a abraça incondicionalmente e a fé (como vista hoje) é a preguiça da razão.

Recentemente uma amiga, muito mais inteligente do que eu a propósito, me perguntou se tenho medo de admitir que não sou cético, afinal digo que me esforço para manter o ceticismo. Tínhamos acabado de sair de um enterro e havia muitos outros assuntos mais práticos para discutir. Além disso tenho o costume de sempre ouvir e refletir analizando as minhas emoções (e procurando eliminá-las da quação) antes de dizer que alguém está errado.

Naturalmente, sendo realmente mais inteligente que eu, ela não estava errada. Tenho mesmo medo de me entregar ao caminho fácil da fé, mas este medo tem uma razão.

Tenho que justificar melhor este ataque à fé (que parece ser o argumento central da maioria das crenças religiosas):

não se pode negar Deus pois ele não pertence ao mundo físico, mas ao mundo íntimo e pessoal da fé que lhe diz que aquilo é real porque você sente que é.

Lamento, mas considero isso uma afronta à capacidade de raciocínio que os deuses nos deram (caso existam) ou uma sub-utilização do potencial desta capacidade que a deslumbrante complexidade do Universo nos concedeu.

Outra forte influência que tive na minha adolescência foram as leituras de Demian de Hermann Hesse e dos princípios do Budismo onde conheci Maya, a deusa da ilusão.

Hoje rimos da inocência de Ptolomeu ao imaginar o Universo como abóbodas concêntricas com estrelas coladas, mas ele utilizou os instrumentos intelectuais e tecnológicos de que dispunha (na verdade pouquíssimos) e um outro instrumento preciosíssimo que todo grande místico (que inicia uma nova forma de espiritualidade) e todo grande cientista têm em comum: eles não usam a apenas a fé, não se valem somente da sua intuição e buscam na razão indícios que confirmem, ainda que hipotéticamente, as suas intuições.

Nisso consiste o desenvolvimento da ciência ou do espírito: ser capaz de duvidar das próprias convicções e se atrever a duvidar da fé. Assim como a moral é inimiga do espírito (que é transgressor), a fé é inimiga do desenvolvimento ou da evolução.

Imagine Ptolomeu, sem instrumentos de medição precisos, sem aceleradores de partículas e sem telescópios, tentar tecer teorias sobre a velocidade da luz, o tamanho do Universo ou o afastamento das galáxias através do desvio para o vermelho (descoberto quase dois mil anos depois).

As mesmas limitações que a ciência encontrava se repete nas reflexões espirituais e, tenho certeza, hoje nos faltam os instrumentos tanto intelectuais quanto tecnológicos para deliberar sobre a natureza de Deus ou sobre o mundo dos espíritos. Não há sequer um personagem espiritual que possa ser realmente detectado por nossos instrumentos e praticamente 100% de toda crença religiosa é construído sob o alicerce da fé.

É muito provável que exista algo que transcende toda forma de consciência que conhecemos e percebemos até hoje, pode ser que a experiência da consciência cósmica (que já tive oportunidade de experimentar três vezes) seja uma rápida e fugaz conexão a esta superconsciência, mas o fato é que não temos como, racionalmente, confirmar isso e, ao retirar-lhe o mistério e eliminar as dúvidas sobre ela afirmando, com base na fé, que esta é uma experiência de ligação com os Deuses podemos estar nos privando da possibilidade de encontrar algo muito mais incrível e sublime do que a divindade que achamos ver hoje. Podemos estar apreciando infantilmente as abóbodas de vidro com estrelinhas grudadas de Ptolomeu, afinal boa parte do mundo mostrado por nossa fé é quase tão antigo quanto o dele, ou quatro das seis grandes religiões não são baseadas nas palavras de Cristo dois mil anos atrás?

Como hoje a velocidade e a superficialidade são a tônica da era da informação (o que eu espero que mude na era do conhecimento) creio ser adequado colocar um parágrafo final com um resumo de tudo que eu disse e assim satisfazer os afoitos que lêem somente o primeiro e o último parágrafos.

Em suma...

Admito a possibilidade da existência de um mundo que transcende a matéria, mas sem instrumentos (intelectuais e tecnológicos) que nos permitam utilizar a razão que recebemos dos Deuses ou da evolução, prefiro ver toda crença espiritual como um conforto para quem precisa acreditar em um sentido para a existência além do prazer da própria existência e a incrivel aventura de desvendar um pequeno segredo dela a cada dia. A fé não deve ser jamais usada como instrumento para descobrir verdades ou desvendar o nosso espírito, muito menos para explicar o Universo.

Last Updated ( Saturday, 20 October 2007 )
 
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