|
O ódio cultivado e maturado é o combustível das vinganças. Uma fórmula que quase sempre termina em desgraça para todos, mas não em V de Vendetta...
Na década de 80 Alan Moore somaria sua voz a de George Orwell e outros que alertavam que a vitória sobre os países fascistas na Segunda Guerra Mundial não era a vitória sobre o fascismo. Demônios. Talvez aqueles das escrituras sagradas não existam, mas certamente criamos nossos demônios sob várias formas. Podem ser verdugos, mas frequentemente vêm para nos testar. Assim talvez seja o fascismo: Uma ideologia que assombra nossos esforços para criar uma sociedade mais igualitária, democrática e justa. Sem ele corremos o risco de nos acomodar, na verdade sempre que nos acomodamos ele ressurge. V de Vendetta (a revista da década de 80) antes de mais nada é um alerta para o fascismo que poderia ressurgir na Europa e, sobe certos aspectos, o que vemos hoje no embate entre o neoliberalismo e certos movimentos populares é um embate entre a democracia e o fascismo. Na história de Alan Moore o cenário é bem mais sombrio, é um mundo onde o fascismo foi crescendo sem que percebebêssemos. É neste meio que surge o protagonista, V. Apenas mais uma entre tantas vítimas do desrespeito fascista às minorias. Submetido a horrores, torturas e experiências V tem todos os motivos para odiar e alimentar seu ódio. Por muitos anos é o que ele faz enquanto prepara sua vendeta, sua vingança. É aqui que o personagem e a história se tornam interessantes. V é um tipo de metáfora para a população esmagada, vilipendiada e revoltada com o sistema. Qualquer semelhança com o Brasil hoje é mais quantitativa do que qualitativa.
Assim como nós V sente que foi usado e deseja vingança. Mergulha em seu ódio, mas algo acontece e, de alguma forma, ele o sublima e parece transmutar o ódio em uma busca pela liberdade. De certa forma V é Hamlet. |