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Não é possível falar deste filme sem falar no mito onde ele se inspira, as Horas da mitologia grega. Revi o filme ontem para elaborar esta resenha a pedido de uma amiga psicanalista e percebi que se trata de um dos cinco melhores filmes que já assisti. Não continue lendo se ainda não viu o filme.
Eunômia, Irene e Dique representavam a Disciplina, a Paz e a Justiça na mitologia grega. Eram as Horas, responsáveis pelo fluxo do tempo e das estações. Entre os atenienses assumiam novos nomes e qualidades. Eram Talo, Auxo e Carpo, respectivamente as que fazem brotar, crescer e frutificar. Assumindo estes dois grupos de atuação as Horas comprem tanto o papel de preservadoras do ciclo da vida quanto do equilíbrio da sociedade. Graças às suas atribuições entre os atenienses sempre foram representadas como jovens graciosas carregando flores ou uma planta. O brilhante roteiro de As Horas vai muito além da mera referência aos símbolos mitológicos, ele os mescla e relê praticamente criando uma nova trindade de Horas onde cada uma tem características das outras duas e até de suas irmãs, as Moiras. É tolice tentar explicar mitos pois sua principal característica são os infinitos significados que se transformam de acordo com o ângulo que os observamos e nosso próprio estado de espírito ou consciência. Tentarei não cometer esta tolice. Talvez a chave para extrair significados desta história esteja em separar algumas das qualidades básicas de cada personagem colocando-as ao lado das Horas e das Moiras. A primeira personagem que surge é Virgínia Wolf (brilhantemente interpretada por Nicole Kidman) nos momentos finais antes de seu suicídio. A segunda protagonista é Laura Brown (Julianne Moore, não menos brilhante), uma dona de casa que, talvez ao ler o livro de Virginia Wolf, se depara com o vazio da própria existência, mas opta por não cometer o suicídio. A última protagonista, Clarissa Vaughan (Meryl Streep), enfrenta o peso da morte de um grande amigo (e filho da segunda protagonista), mas decide definitivamente pela vida. Elas são Brotar, Crescer e Frutificar. Felizmente o escritor(Michael Cunningham) e o roteirista (David Hare) foram além da mera referência mitológica e podemos ver em Virgínia Wolf, Cloto, a Moira que fia o destino e ao mesmo tempo lança a semente do crescimento da vida. Mas nela também encontramos Átropos, a que decide quem terá seu fio do destino cortado e morrerá. Em Laura Brown percebemos Láquesis, a Moira que sorteia quem deve morrer, quando ela se depara com a escolha: morre ou abandona todos que ama para descobrir a própria vida? Clarissa Vaughan de certa forma reúne todas as seis (as Horas e as Moiras) em seu esforço de preservar a vida. E se olharmos para o filme do ponto de vista dos relacionamentos familiares e não pelo valor que cada uma dá para a vida? Se fizermos isso nos deparamos com a riqueza dos mitos e certamente notaremos que cada uma das protagonistas encarnará características de outras das seis irmãs da mitologia grega.
Enfim, passando de 1923 a 1954 e finalmente a 2001 acompanhamos, junto com as protagonistas, não só a trajetória da liberação do espírito feminino, mas também o próprio amadurecimento da consciência e solidez da nossa sociedade. Sim, esta é uma afirmação forte, afinal é senso comum a deteriorização dos nossos tempos, mas o que assistimos em As Horas é amadurecimento e frutificação. Se hoje somos uma espécie diante de grandes ameaças somos também uma espécie dona de grandes conquistas e recursos sociais, morais e de espírito. Links Internet Movie Database (Inglês)
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