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Dança em Trânsito PDF Print E-mail
Written by Roney Belhassof   
Wednesday, 25 June 2003

Entre os corredores de concreto da cidade a luz do sol desce mais pálida. Os ventos sopram as copas endurecidas das árvores cobertas da poeira de chumbo dos nossos carros e não a grama verde ou os campos de trigo que oscilam como o mar seguindo uma coreografia milenar.

Subitamente, entre a paisagem dura do bairro distante do mar e as curvas sensuais das praias e lagoas surgem os movimentos sinuosos de gente que se apaixonou pela dança e faz dos seus corpos altares em homenagem a harmonia do movimento: é o projeto dança em trânsito que ocorre no Rio entre 26/6 e 29/6 de 2003. Seguem os participantes e programação.


Entre os corredores de concreto da cidade a luz do sol desce mais pálida. Os ventos sopram as copas endurecidas das árvores cobertas da poeira de chumbo dos nossos carros e não a grama verde ou os campos de trigo que oscilam como o mar seguindo uma coreografia milenar.

Subitamente, entre a paisagem dura do bairro distante do mar e as curvas sensuais das praias e lagoas surgem os movimentos sinuosos de gente que se apaixonou pela dança e faz dos seus corpos altares em homenagem a harmonia do movimento: é o projeto dança em trânsito que ocorre no Rio entre 26/6 e 29/6 de 2003. Seguem os participantes e programação.

Participantes

01- Cia Carlota Portela / Vacilou Dançou - RJ
02- Márcia Rubin Cia de dança - RJ
03- * Grupo Tápias Cia de dança - RJ
04- Marcellus Ferreira - RJ (Vá ver)
05- Cláudia Muller - RJ
06- Cia de Dança Dani Lima - RJ
07- Tran Chan Cia de dança - Salvador
08- Cia SeráQuê? - BH
09- Dudude Hermann - BH
10- Paula Águas - RJ - email - site (Vá ver)
11- Renato Vieira cia de dança - RJ
12- Arquitetura do Movimento - RJ
13- * Ballet Contemporâneo do Rio de Janeiro / Spinelli - RJ
14- * Provisional Danza - Madrid, Espanha (Vá ver)
15- Esther Weitzman cia de dança - RJ
16- Danças Rubens Barbot - RJ
17- * Dupla de Dança Ikswalsinats - RJ (email )
18- * Búbulus cia de dansa - Barcelona Espanha
19- Rede - Cláudia Muller e Wagner Schwartz - RJ
20- * Tanzhaus - RJ (email )
21- Membros cia de dança - RJ
22- Laso cia de dança - RJ
23- Sylvio Dufrayer cia de dança - RJ
24- Companhia Carlinhos de Jesus
25- Os Dois cia de dança - RJ
26- Spoudaios - RJ
27- Compagnie Pernette - Besançon, França
28- Damian Muñoz - Vitória, Espanha (Vá ver)
29- Desvio / Henrique Rodovalho - RJ
30- Oficina Carles Salas
31- AMCD Andréa Maciel cia de dança - RJ
32- Atma cia de dança - RJ

Marquei com asterisco os que mais gostei e indico mesmo para quem nunca viu dança contemporânea.

Programação

Quinta, 26, 20h - Parque das Ruínas
1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 / 12

Sexta, 27, 16h - Cinelândia
13 / 14 / 15 / 1 / 16 / 17 / 2 / 18 / 19 / 12

Sábado, 28, 11h - Méier (perto do mercado pricipal)
20 / 21 / 16 / 22 / 23 / 18

Sábado, 28, 16h - Shopping Downtown
24 / 30 / 23 / 25 / 26 / 9 / 10 / 8 / 27 / 28 / 3 / 29 / 14

Domingo, 29, 11h - Lagoa (em frente ao parque da Catacumba
24 e 6 / 30 / 27 / 2 / 9 / 7 / 13 / 31

Domingo, 29, 16h - Praia de Copacabana
24 / 1 / 28 / 29 / 14 / 3 / 32 / 31 / 16

Comentários

É uma pena que encontremos espaços tão exíguos para a dança nos meios de comunicação de massa. Principalmente depois de ver a reação desta massa na Cinelândia. Criaças com menos de um ano atentas a cada movimento dos bailarinos. Rapazes com pouca instrução que jamais tinham visto dança contemporânea comen-tando empolgados o espetáculo diante dos seus olhos e até os mendigos compenetrados... Curiosamente, entre a classe mais abastada, na Barra da Tijuca, parecia haver mais pessoas incapazes de entender e desfrutar do que viam do que entre o povo heterogêneo da Cinelândia; entretanto, em geral, o fascínio era o mesmo!

Diante disso nos resta apenas tentar oferecer este pequeno espaço em homenagem a estes artistas que se entregam à sua paixão e acreditam na arte. Na esperança que outras pessoas possam encontrar o prazer de esperimentar a arte passo a descrever a sensação que me causou cada um dos espetáculos deste festival.

Oficina de Carles Salas

Um mosaico de pessoas que transitam em uma praça, mas seus movimentos internos extrapolam seus pensamentos e se fazem movimento: alegria, medo, desejos, superação...

Miolo Mole - Sylvio Dufrayer Cia de Dança - RJ

Diante de um restaurante uma mulher espera ansiosa pelo seu encontro.

Sob o tom cômico acabamos encontrando nossas próprias expectativas em relação aos outros. Rir dos outros sem perceber que rimos de nós mesmos pode ser um excelente remédio para a falta de auto-crítica.

Ó Água - Os Dois Cia de dança - RJ

Uma mulher que dança sobre um reservatório de água enquanto um homem estranho e suspeito o enche de água tirada de um lago. Vale pela reação que causa à platéia, provocando e instigando a busca de um significado que ser revela cômico em sua previsibilidade escondida até o último momento.

Três-meia-cinco - Spoudaios Cia de dança - RJ

Em um quadrado com pouco mais de um metro de lado três bailarinos, ao som de Haiti, reproduzem os conflitos do confinamento carcerário. É uma das obras mais fortes e inspiradores que já vi. Choca, sim, mas humaniza o demonizado criminoso e, assim, acaba transmitindo um rasgo de esperança, ainda que sutil, afinal se há humanidade há possibilidade de mudança, um demônio, entretanto, sempre será uma ameaça.

A Visita - Dudude Herrmann - BH - email

Sobre uma mesa solitária, com apenas uma cadeira, repousam um livro aberto, algumas cartas, uma vela... A bailarina se mistura ao público cativando-o e juntando-se a ela como uma criança que encontra novos amigos.

Qual é a música - Paula Águas - RJ

Técnica e criatividades fora do comum fazem deste um dos trabalhos mais marcantes para a platéia. A dançarina transita com facilidade entre as músicas escolhidas pelo público. Além da participação da platéia na criação o trabalho nos faz refletir sobre a efemeridade, afinal nossa vida é uma sucessão de músicas trocadas e buscas, nem sempre tão bem sucedidas como as de Paula Águas, de coreografias para o novo ritmo.

Receita - Cia SeráQuê? - BH

O bailarino se desenvolve em belos movimentos, fortes e flexíveis consquitando a admiração da platéia, mas, ao final, nos encara e pergunta se a dança contemporânea não parece muito abstrata, subjetiva. Então volta a executar a mesma coreografia, mas , desta vez, ao som de uma receita de bolo xadrez. E o significado de cada movimento repentinamente fica claro!

Este é o tipo de espetáculo que conquista mesmo quem jamais assistiu um espetáculo de dança contemporânea, além de arrancar excelentes risadas!

Eu não sei - Compagnie Pernette - França

Nos movimentos neuroticamente repetitivos, na obcessão da bailarina e no ritmo linear da música encontramos as nossas próprias manias e prisões cotidianas, mas a comédia, o tom caricata dos movimentos leves e fluidos que se misturam aos angulares e mecânicos surge uma esperança de solução: ao encontrar o cômico por trás de um problema nos tornamos maiores que ele.

Damian Muñoz - Vitória, Espanha - email

A princípio estranho, depois engraçado e, finalmente, muito significativo.

Todo relacionamento é marcado pela oscilação entre harmonia e caos. Neste espetáculo isto é retratado com humor e muita clareza.

Diz o espaço, que eu digo a dança - Grupo Tápias - RJ

O vasto espaço de um chafariz explorado por uma única bailarina nos remetendo ao mito de Narcíso. Entre ninfa e Narciso a coreografia nos leva inconscientemente para a dimensão onírica suscitando o tipo de impacto que percorre nossos sonhos e acaba por tocar nossa mente consciente, inesperadamente, dias depois...

Os homens também movem paredes - Provisional Danza - Madrid, Espanha - site

Uma combinação de técnica, carisma, estética e significado faz deste um dos mais marcantes espetáculos deste festival. Os bailarinos começam sua performance descendo pelas paredes de um edifício e arrancam interjeições da platéia ao pender como peças de um móbile ao redor do muro indiferente.

Trata-se de uma crítica simbólica, alguns spodem considerar "artístico demais", mas, ainda assim, permanecer hipnotizado pela beleza e pelo significado que percebemos mesmo sem entender.

Márcia Rubin cia de dança - RJ - email

A arte pode inspirar questionamento, retratar e até antecipar a realidade, mas também pode ser simples prazer estético como esta coreografia de Márcia Rubin. Os movimentos suaves, a beleza das formas delineadas pelos dançarinos e as expressões alegres parecem invocar a primavera.

Há entretenimentos que descansam a mente, mas a atrofiam, já este trabalho tem o mérito de oferecer um descanso restaurador!

ATMA - RJ

Duas dançarinas viajam pelas emoções, ginga e histórias de Copacabana.

Gosto de arte que me faz pensar, mas o carisma e técnica desta cia me conquistou, havia jovialidade e alegria em cada movimento. Como filho de Copacabana não tem como não se emocionar vendo o velho bairro dançar diante dos seus olhos.

Cia Carlota Portella

Tive duas surpresas neste festival, esta foi uma delas. Gostei muito do que vi apesar de ter esperado um jazz convencional. Como já disse gosto de arte que me faz pensar, que, de alguma forma representa a realidade.

Vi duas coreografias da cia Carlota Portella (uma na Cinelândia e outra na Lagoa). Gostei mais da segunda que mostra, ao meu ver, os conflitos, encontros e desencontros nos movimentos urbanos, nas pessoas que se temem, hostilizam ou se amam enquanto nossas ruas parecem cruzar nossos caminhos.

Tran Chan - Salvador

Não houve uma cia de dança neste festival que não tenha me agradado tecnicamente (se bem que sou apenas um espectador ávido e não um profissional de dança). E esta cia não fugiu a isto, mas o espetáculo deles me causou uma certa estranheza, talvez porque tenho a necessidade de transformar o que vejo em algo concreto.

O figurino me fez pensar nos homúnculos da alquimia medieval ou nos "mostrengos" da Cultura Racional; como uma sátira ao que tentamos esconder. Uma coisa não se pode negar: o grupo é criativo!

Desvio / Henrique Rodovalho- Goiânia - email

Outro grupo que confesso ter dificuldade de compreender. Me agrada muito a fuga do normal, o experimentalismo que nos defronta com algo inesperado e inusitado. Nenhum grupo foi mais inusitado que este que literalmente deu nó no público que se esforçava para decifrar os monstros que vagavam neuroticamente mergulhados em tiques e manias.

É o tipode criação artística suficientemente abstrada para levar um significado a cada um que a assite. No meu caso vi o povo afastado dos grandes centros que é estigmatizado aos olhos metropolitanos.

Ballet Contemporâneo do Rio de Janeiro

Foram os primeiros a se apresentar na Cinelândia e me conquistaram com a força da imagem que trouxeram! Nas escadas do teatro Municipal um grupo de pessoas segue seu caminho entorpecidas e sem as diferenças que a individualidade nos confere. Então uma musa, uma ninfa perturbada se desenvolve entre eles tentando despertá-los, dividir seus movimentos suaves. A expressão da bailarina e a maquiagem realmente me impressionaram.

Na Lagoa eles mostraram um tipo de estudo da cegueira. Diante de uma das mais belas paisagens do Rio a cegueira pode ser imposta pelos outros, auto-imposta ou mútua... Não me impressionou tanto quanto o primeiro mais é bem propício quando vivemos numa das mais belas cidades do mundo e andamos pelas ruas sem lançar um olhar para o sol que se põe entre as montanhas.

AMCD: Andrea Maciel cia de dança - RJ - email

A beleza dos movimentos hora fortes, hora suaves com a velocidade impessoal do trânsito que segue ao redor, aparentemente alheio a tudo, me impressionou. Além disso a coreografia era acompanhada por um cinegrafista que fazia o olho da câmera literalmente bailar entre os movimentos precisos. Acabei sendo conduzido a oscilar entre a visão geral que tinha de longe e a visão exageradamente próxima da câmera.

Búbulus Cia de Danza - Barcelona, Espanha

Uma dupla de bailarinos, um encontro de amigos no meio da Cinelândia. Um espetáculo de rara beleza sobre amizade e harmonia.

Esther Weitzman cia de dança - RJ

Trazer à baila o questionamento dos nossos caminhos pode ser apenas uma das funções da arte, mas é uma das mais nobres. Afinal que tipo de bicho é o homem? Que responsabilidade temos pelos erros cometidos pela nossa espécie?

O apelo dramático da cia quase me levou às lágrimas com uma coreografia sem complexidades desnecessárias e um fechamento emocionante!

Last Updated ( Monday, 14 August 2006 )
 
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