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Catharina Gadelha no CCBB |
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Written by Roney Belhassof
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Monday, 25 April 2005 |
Este mês o CCBB apresentou quatro grandes expoentes do balé contemporâneo e Catharina Gadelha ocupará esta última semana. A julgar pelo release (em anexo) e a conversa que tive chance de ter com a produtora parece ser um destes raros trabalhos capazes de unir beleza estética com significado. Tenho insistido frequentemente na importância de exercitar esta preciosa capacidade humana que nos torna sensíveis ao ambiente, sem esta sensibilidade nos afastamos do humano e nos aproximamos de computadores. Por ser uma forma de arte menos comum o Balé Contemporâneo é um dos melhores instrumentos para exercitar esta sensibilidade. Clique no título para ver o release da Catharina Gadelha.
 “ESQUECIDOS” O espaço político na dança não é inédito, mas foi muito pouco explorado até aqui. Com o espetáculo Esquecidos – da bailarina Catharina Gadelha – a linguagem política ganhou, pela primeira vez, um lugar de destaque longe da estética comum, conferindo à dança uma identificação concreta. Ou melhor, concretizando o movimento que é tarefa da expressão exclusiva do balé. Uma dança-teatro que se aproxima do espectador e se deixa compreender com a intenção deliberada de dar impulso ao diálogo. Mas não é só isso. Chega a confrontar o espectador, elevando-o à condição de co-autor. E tudo isso acontece porque a dança de Catharina Gadelha permite ao espectador que ele se posicione. Depois do onze de setembro, Afeganistão e Iraque. Duas torres caíram. Para cada torre uma guerra. Quantos mais virão?... O sofrimento não terá fim?... O terror é uma arma?... E será que todos nós usamos o terror?... Rússia, Filipinas, Chile, Nicarágua, Coréia, Bósnia, Kosovo, Libéria, Ruanda... Um milhão em Ruanda! Esse é um espetáculo que pretende não nos deixar esquecer a vida e as vidas tomadas em vão. O movimento. O espaço político. Aquelas vidas que já não vendem jornais e tampouco operam nosso inconsciente coletivo durante o horário nobre. Onde está a nobreza?... A brasileira Catharina Gadelha teve suas primeiras aulas de balé em 1971. Em 1991 ganhou, com sua primeira criação coreográfica, o prêmio do concurso de Coreografia de Colônia, Alemanha. Nos anos seguintes atuou como bailarina e coreógrafa na Companhia de Dança Padilla de Colônia, recebendo o prêmio Juri no concurso de coreografia da mesma cidade. Foi uma das fundadoras da Companhia de dança Terza e Uno, onde trabalhou ativamente. Em 1997 foi primeira colocada no Concurso de Melhor Dança-Solo da Alemanha, com a peça “Eu pensava que...”, de Pitkowski, na cidade de Leipzig. As peças de Catharina Gadelha não devem ser entendidas somente como atos corporais, mas sim, cada vez mais, como um movimento político. É nesse sentido que ela apresenta tanto os seus solos como as suas coreografias de grupo. Workshop Com o objetivo de promover um intercâmbio de trabalho entre a artista e os profissionais brasileiros, Catharina fará um workshop, uma excelente oportunidade para que os artistas da dança possam receber novos impulsos, conhecer e se aprofundar mais no estilo da dança-teatro. O workshop será ministrado no CCBB, nos dias 28 e 29 de abril, de 10 às 14h, com carga horária de 4 horas diárias. Os 20 primeiros inscritos farão parte do workshop e os demais interessados poderão participar das aulas como ouvintes. Serão enviadas fichas de inscrições à academias e escolas de dança do Rio.
Serviço Informações tels: (21) 3681-7111 / 9505-4222 fax: (21) 2558-7190
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Minhas impressões Vou aproveitar o email que enviei para a Elisa: Eles chamam Esquecidos de dança-teatro, mas eu chamaria de solo de dança contemporânea com significado sócio-político. No meio desta era de nanocontos sempre tem quem diga algo como "Pombas, porque em vez de ficar lá dançando ela não sentou numa cadeira e contou sobre a exclusão de imigrantes, as várias culturas que ela viu tentando sobreviver apesar dos horrores da guerra e da violência?" Pois o espetáculo é sobre isso ai mesmo. No palco tem nomes de países escritos a giz. Começa com uma música cheia daquela alegria juvenil, dá vontade de sair dali e dançar em um bosque. Então ela faz um corte duro e frio, ela cai, as luzes se apagam e voltam bem fracas e vemos que a dançarina está apagando um país, entendi como uma forma de mostrar que enquanto alguém dança feliz a fome, a miséria e todos estes horrores condenam um grupo de pessoas ao esquecimento. A luz volta a apagar e, quando acende, a música inicial volta e ela dança a mesma coreografia com a mesma leveza, alegria e inocência, mas ai já tem, para quem assiste, um quê de alienação, afinal como ela pode estar dançando tão alegre sabendo do que está acontecendo em outros lugares? Nem mesmo é em outros países, ali mesmo na esquina tem gente comendo lixo, mais ali no interior tem gente passando tanta fome quanto os etíopes. Mas estas são reflexões minhas. No terceiro corte as luzes diminuem, mas não se apagam, a gente passa a acompanhar a coreografia dos excluídos, digo, esquecidos. São músicas com traços de várias culturas e a coreografia é dura, pesada e dolorosa, perturbadora, mas muitíssimo bem executada. Durante este ato eu ficava pensando onde iria parar aquela alegria e pureza do primeiro ato, se ela ousaria voltar a ele (o ato) modificado pelo peso do segundo. Ela teve... A música no terceiro e último ato é a mesma do primeiro, a coreografia é a mesma, mas já não há mais a vida e a leveza que havia no início, nossa! Dá uma compaixão profunda! E não é aquela compaixão que se confunde com pena não, é sentir-se junto mesmo, é perceber que embora possamos dançar alegremente nosso irmão está logo ali do outro lado dançando como pode. Não é um espetáculo para se alienar, também não é um espetáculo para se animar, é para exercitar aquelas características tão exclusivas dos humanos como a compaixão e a consciência.
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Last Updated ( Sunday, 27 November 2005 )
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