A teatralidade, a dramaticidade, o pensamento político e filosófico
associados aos movimentos da dança, algumas das mais importantes linhas
de trabalho na atualidade, estão nos quatro espetáculos que o CCBB-RJ
reuniu neste mês
O Quasar abre a série com Só tinha de ser com você, coreografia baseada
no disco “Elis e Tom” – a música dos dois gênios da MPB trazendo novas
cores dentro da história de sucesso do grupo goiano, um dos mais
singulares do país.

A carioca Flávia Tápias aceita em 5 Coreógrafos para um Corpo o desafio
de interpretar, em seqüência, cinco coreografias assinadas por nomes de
peso, e ainda submeter o corpo do bailarino às considerações de uma
psicanalista, um filósofo, uma pesquisadora e um diretor de teatro
O diretor de teatro Eduardo Wotzik recolhe fábulas e lendas dos cinco
continentes para debater a Ética através dos movimentos de sete
bailarinos
As vítimas anônimas da violência pelo mundo afora são o tema
abertamente político-social em Esquecidos, criação da brasiliense
radicada na Alemanha Catharina Gadelha, que mostra pela primeira vez no
eixo Rio-São Paulo seu trabalho de dança-teatro. Catharina vai dar
também um workshop dias 28 e 29 de abril
O Centro Cultural Banco do Brasil está em harmonioso movimento neste
mês de abril, período tradicionalmente reservado à Dança em sua
programação. O palco do Teatro 2 será ocupado, de 6 de abril a 1º de
maio (sempre de quarta a domingo, às 19h), por quatro projetos
inéditos, singulares e impactantes.
O painel destes quatro espetáculos vem abrir – sem interligação
curatorial – um leque da dança contemporânea brasileira, refletindo em
sua variedade diversas vertentes extremamente significativas, presentes
no trabalho atual dos criadores do setor. Assim, sobem à cena
coreografias baseadas no tour-de-force dos solos, no casamento da dança
com a dramaturgia eminentemente teatral, no selo autoral das
companhias, aqui representado pela força do grupo Quasar, e na
linguagem política da dança-teatro.
Novidades e ousadias
Cada um dos quatro espetáculos propõe ousadia e inovação. O
prestigiadíssimo
Quasar apresenta, pela primeira vez, um trabalho
calcado em música brasileira – neste caso, um clássico da MPB, o disco
referencial
Elis & Tom, de 1974, abandonando por um momento a
sonorização sincopada e de tons hipercontemporâneos que sempre
caracterizou a companhia. A carioca
Flávia Tápias oferece a perícia e a
precisão de seu corpo a cinco coreógrafos que criaram solos de estilos
completamente diferentes, e abre espaço para comentários de diversos
especialistas nos intervalos. O diretor
Eduardo Wotzik cria, em
trabalho conjunto com oito bailarinos, cinco cenas/células de
movimentos em torno do abstrato – e fundamental - tema Ética, calcando
a criação no estudo de lendas e fábulas do mundo inteiro. E a
brasiliense
Catharina Gadelha se apresenta pela primeira vez no eixo
Rio-São Paulo com um espetáculo que ela define como eminentemente
político e social, trazendo ao palco a representação das vítimas
anônimas da violência pelo mundo todo, evocadas através de movimento,
fala e encenação.
Mais do que procurar abranger muitas tendências num único olhar ou
tentar esgotar numa visão geral do muito que se faz hoje no país, o Mês
da Dança abre o horizonte para projetos sólidos, a comprovar a
maturidade, a riqueza da produção e do pensamento criativo da dança
brasileira. São propostas diferenciadas na essência mas que constituem
uma amostragem de alta qualidade; cada espetáculo está lastreado por
nomes e históricos que reafirmam sua qualidade. Abril é o tempo do CCBB
carioca se tornar o espaço de criadores da dança contemporânea do
Brasil.
Os movimentos deste mês, semana a semana:
De 6 a 10 de Abril –
Grupo Quasar –
Só tinha que ser com você –
coreografia de
Henrique Rodovalho baseada nas canções do disco Elis
& Tom
Um dos mais prestigiados grupos de dança contemporânea do Brasil, de
sólida carreira, aclamado pela crítica e pelo público, o goiano
Quasar
– com 17 espetáculos montados desde 1988 – volta ao Rio depois de dois
anos e vem inovando no espetáculo que abre o mês no CCBB.
Henrique
Rodovalho sai do ambiente de música eletrônica e percutida que sempre
caracterizou os espetáculos da companhia para cair nos braços do
sofisticado lirismo do disco Elis e Tom, gravado em 1974, com suas 13
faixas que representam uma fatia suculenta do melhor da MPB. Triste,
Modinha, Por toda a minha vida, Corcovado, Retrato em Branco e Preto,
Pois é, Chovendo na Roseira, O que tinha de ser, Brigas nunca mais,
Inútil paisagem, Soneto da Separação, a faixa-título da peça de
Henrique Rodovalho Só tinha que ser com você e... Águas de Março,
naturalmente. “Vou usar o disco todo na coreografia; pelas Águas de
Março eu tenho uma reverência especial, e esa música terá tratamento
idem”, diz
Rodovalho, que aponta o disco como “o mais especial da minha
vida, desde criança”.

Os figurinos são do estilista
Cássio Brasil, de São Paulo, e também não
enfatizam nenhuma intenção naturalista ou personificado. “Não é um
figurino cotidiano nem urbano; são quase escamas, uma segunda pele”,
revela
Rodovalho.
O desafio de coreografar canções que são patrimônio do Brasil, vivas e
vívidas, na performance de dois monstros sagrados não foi pequeno. “A
responsabilidade é maior ainda, já que é um clássico. Os bailarinos não
são personagens, não há nada de figurativo, trago um lado mais abstrato
e a fuga do óbvio é muito difícil”, avalia ele. “Estou querendo
provocar, digamos, uma terceira emoção com esse trabalho: não é a
emoção da música, não é a da coreografia, é um produto da combinação
dos dois”. O resultado desta combinação vai ser visto na primeira
semana deste Mês da Dança. “O impulso de ver isso dançado é maior que o
receio”, diz o coreógrafo.
O
Quasar: uma proposta estética de muitas faces. A companhia vem
colaborando para que platéias do Brasil e do mundo reflitam sobre
a contemporaneidade como uma linguagem global.
Fundada em 1988 por
Vera Bicalho e Henrique Rodovalho, tem suas origens
no Grupo Energia, formado em Goiânia, Goiás, no início dos anos 80.
Entre os primeiros objetivos, durante o período de criação da
companhia, sempre estiveram presentes o desejo de liberdade, diante das
regras acadêmicas, e a necessidade de não se fixarem modelos. Tal
postura possibilitou que a
Quasar trilhasse uma interessante
trajetória, esquivando-se das relações puramente estéticas da dança
para aprofundar-se em questionamentos pertinentes à realidade
social. Nos 17 anos de criações e apresentações em palcos
brasileiros e estrangeiros. (veja a lista dos espetáculos no box),
propôs sempre “como poucos o trânsito entre a cultura erudita da dança
e a da música popular brasileira”, segundo a crítica Helena Katz. “Essa
companhia conseguiu ser singular numa época onde as Modernidades têm
produzido muitas pasteurizações”, diz. O grupo foi comparado por Ana
Ponzio (Valor Econômico) ao Corpo mineiro, na solidez e coerência de
sua trajetória.
ASAS – 1988 / ESTUDOS – 1989 / SOB O MESMO AZUL – 1989 / NÃO PERTURBE –
1992 / TRÊS AO CENTRO – 1992 / O OVO DA GALINHA – 1993 / SENHORES DE
POUCAS VISÕES – 1993 / QUASAR EM PERFORMANCE – 1994 / QUASAR ERUDITO –
1994 / QUATROS – 1994 / VERSUS – 1994 / REGISTRO – 1997 / DIVÍDUO –
1998 / COREOGRAFIA PARA OUVIR – 1999 / MULHERES – 2000
/ EMPRESTA-ME TEUS OLHOS – 2001 / O+ - 2004
Henrique Rodovalho, autor das coreografias ao longo de toda a
existência da Companhia, tem formação em Educação Física e atuou como
ator e bailarino antes de tornar-se criador na dança; sua criação tem a
marca inquestionável, com inconfundíveis signos rítmicos. Seu
envolvimento com a produção de vídeos e o espetáculo no palco como um
todo acabou levando-o à direção cênica, em que utiliza multimeios entre
os recursos de montagem .
SÓ TINHA DE SER COM VOCÊ - Coreografias : Henrique Rodovalho

Bailarinos: Camilo Chapela / Érica Bearlz / Gleidson Vigne /
James Nunes / João Bragança / Lavínia Bizzotto / Nazilene Barbosa
/ Rodrigo Cruz / Valeska Gonçalves
Direção de palco - Paulo Vigário / Concepção de luz - Henrique Rodovalho
Iluminador - Alexandre Marques / Cenografia - Shell Jr. / Figurino - Cássio Brasil
Trilha sonora - Elis Regina e Tom Jobim - Álbum: Elis & Tom
Diretor Artístico - Henrique Rodovalho / Direção Geral - Vera Bicalho
De 13 a 17 de abril - 5 Coreógrafos para um corpo – A bailarina
Flávia Tápias na perfomance de cinco solos inéditos, especialmente
criados para ela por
Ana Vitória (RJ),
Henrique Rodovalho (Goiânia),
Rami Levi (Israel), o diretor de teatro
Paulo de Moraes (RJ) e
Giselle
Tápias (RJ). Nos intervalos, o corpo e suas manifestações no palco
ganham comentários de
Jacqueline Bonelli (psicanalista),
Alexandre
Belfort (professor de filosofia),
Denise Oliveira (jornalista e
pesquisadora) e um diretor de teatro.
Um corpo e cinco propostas; um corpo e cinco estilos; um corpo e cinco
temas. O corpo é da plural Flávia Tápias, e a idéia central do
espetáculo é o desafio da performance, em sucessão, de cinco
coreografias especialmente criadas. “Se a composição de um solo já
exige uma superação, tanto pelo aspecto físico quanto pela concentração
e qualidade do solista, a execução de cinco solos consecutivos por uma
única intérprete vai demandar um excepcional vigor muscular, uma
espetacular resistência física, perseverança, destreza e habilidade – e
Flávia tem uma força cênica muito grande”, diz Giselle Tápias,
coreógrafa de um dos solos. Aos 24 anos, trazendo uma bagagem de
respeito, Flávia Tápias deseja o desafio. “É muito difícil, mas
altamente gratificante. Cada solo é inteiramente diferente e eu tenho
que mudar tudo, da postura à energia, de um para o outro”. Nos
intervalos das coreografias, o público acompanha a avaliação
profissional de uma jornalista/pesquisadora de dança (Denise Oliveira),
um professor de filosofia (Alexandre Belfort), uma psicanalista
(Jacqueline Bonelli) e um diretor de teatro, comentando o desgaste
físico e emocional em cada trecho do espetáculo. Os cinco solos são:
1)
BALLET MECANIQUE - Para George Antheil (1900-1959), pela sua irreverência e visibilidade.
Direção, Coreografia, Cenografia e Vídeo Instalação – Ana Vitória -
Música – Ragnarök. Uma abordagem do corpo mecânico, da precisão. “Estou
em cena parecendo controlar o tempo e o espaço, representados por
projeções de ampulhetas e um piso de onde não posso sair”, conta a
bailarina. “Na verdade, são esses limites que me controlam; ou não?”
(aprox. 18 minutos)
2)
SEMELHANTE - Coreografia – Henrique Rodovalho / Música - Porter Ricks
Os movimentos cheios de arestas e a música sincopada do coreógrafo do
Quasar aqui desafiam Flávia em frases cinéticas entrecortadas mas em
seqüência. “É mais do que contemporâneo; me desloco o tempo inteiro no
chão, explorando uma gestualidade totalmente não-habitual”, dia Flávia.
São “pequenos espaços desenhados e preenchidos”, na definição de
Rodovalho. (aprox. 6 minutos)
3)
SOLO - Coreografia - Rami Levi (Tel-Aviv / Israel) / Música – Krishna Deis
O coreógrafo e bailarino nascido em Israel adaptou para Flávia este
solo que ele mesmo já interpretou, que remete à linguagem gestual de
animais, “é uma dança redonda, espiral, com um traço de mantra como a
música sugere”, define a bailarina, “uma desconstrução do clássico que
cita o balé clássico o tempo todo”. Essa coreografia, segundo ela,
contrasta fortemente com a anterior: mais contínua, toda na vertical,
incessante. Rami , um coreógrafo de vastaa experiência internacional -
fez parte do Centre Coreographique Nacional de Tours de Jean Christoph
Mailot, integrou o Cullberg Ballet de Mats Ek, a Compania Nacional de
Danza dirigida por Nacho Duato e a Bat Sheva Dance Company de Ohad
Naharin. (aprox. 6 minutos)
4)
DA FAMÍLIA DOS CROCODILOS - Direção de Paulo de Moraes / Música.....

Um trabalho de movimento sobre o processo da violência, na definição do
diretor, com quem Flavia já exercitou, nas palavras dele próprio, sua
“profunda capacidade de transformação cênica”. “Minha função aqui é a
de uma espécie de escavador de sentidos, num jogo de troca constante
com a Flávia, para construir uma seqüência de movimentos que discuta
violência, dominação e solidão”, diz Paulo de Moraes. Para o solo, que
terá projeção de imagens, o figurino delicado contrata com luvas de
boxe. A música mescla ..... com as falas. (aproximadamente 10 minutos)
5)
REDE - Coreografia – Giselle Tápias / Música: FLAUTA BUZINA
(Aldeia Metutire – Magui, Paburi, Pincó), PAI E MÃE (Renato Lemos e Sá
Brito – edição da trilha / Renato Lemos – composição e arranjo),
FALAS (Maurício Grassmann – edição da trilha e samplers / Alfredo
Bello, Maurício Grassmann, Simone Soul e Sá Britto – composição),
FLAUTA DE PÓ (Sá Brito – edição da trilha) e Feira de Caruaru (
Onildo de Almeida / Fernando Rocha, voz; Nonato Luiz, arranjo e violão;
Rafael Rocha, pandeiro, zabumba, agogô, reco-reco de mola, triângulo) e
A Feira de Caruaru (Onildo Almeida / com Luiz Gonzaga).
Este solo, resultado de intensa pesquisa do Grupo Tápias cia de dança,
explora os diversos significados culturais da rede. Segundo a
coreógrafa, “a rede surge como símbolo de adaptação, acomodação e
conquista, como sujeito cênico que interage, ou, simplesmente, objeto
utilitário” É a rede de dormir, a cama suspensa para descansar, a maca
dos enfermos, a cadeira-de-balanço solta no ar, o meio de transporte
para vivos, o enterro-de-rede, o leito portátil para viajar. “De cipó,
fios de algodão ou fibra vegetal, herança dos índios, a rede é
imprescindível na vida cotidiana de boa parte do povo brasileiro”,
conta Giselle. “Criei uma estrutura ultramoderna para sustentar a rede,
esse objeto atávico na nossa memória nacional; a profunda pesquisa de
hábitos e sons da cultura que tem a rede foi de uma riqueza
impressionante”, completa. Flávia Tápias acrescenta que a movimentação
explora todas as possíveis contracenas com a rede: de dentro, de fora,
no alto, no chão, na estrutura, “E ainda mergulhei nas aulas de forró
para capturar mais a fundo este espírito”, completa na bailarina.
(aprox. 13 minutos)
Nos intervalos, o público acompanha a avaliação de profissionais de
diversas áreas sobre o impacto e a performance do corpo em movimento
nos solos.
Direção Artística – Giselle Tápias / Direção de Produção – Norma Thiré
Iluminação – Cadú Fávero / Figurinos – Cláudia Diniz
De 20 a 24 de Abril - Éticas – Do diretor
Eduardo Wotzik -
Inspirado em lendas e fábulas dos cinco continentes, o diretor propõe
módulos cênicos e coreográficos em que a discussão em torno da Ética é
o motor dos movimentos
Oito bailarinos encadeiam movimentos coreográficos orientados pela
idéia filosófica da Ética, sob a direção de Eduardo Wotzik. “Livremente
inspiradas em fábulas e lendas do mundo todo, prefiro assim”, conta o
diretor, que começou um profundo envolvimento com a dança desde 2003,
através do trabalho desenvolvido no Ateliê Coreográfico, sob a direção
de Regina Miranda. “Foi um trabalho muito gratificante e resolvi
iniciar um processo mais consistente de aproximação entre os mundos da
dança e do teatro. Daí surgiu o primeiro espetáculo, Missa para
Clarice, e agora Éticas”.
Por muito tempo, segundo o diretor, ele vem falando de ética: “acho que
há 26 anos; só no CCBB meu Centro de Investigação Teatral falou por
Eurípedes em Tróia, por Lorca em Yerma, por Albee em Um equilíbrio
delicado” (...) “e percebi que andávamos todos essencialmente gritando
por ética. Aí resolvi tentar parar de falar um pouco, que a palavra
anda muito desgastada”
Para desenvolver o trabalho junto aos dançarinos, Wotzik lançou mão em
especial do método que desenvolveu há mais de 12 anos, de preparação
cênica através da respiração. “Meu interesse sempre foi no corpo
cênico. Por isso me debrucei tão entusiasticamente nessa interseção
teatro-dança, é uma viagem muito estimulante e revigorante, mais ainda
porque meu teatro sempre foi fortemente calcado na palavra – mas a
dança abriu um novo campo de pensamento, imagético”.
A sonorização de cada uma das cenas-células é “o apanhado mais
universal possível”, lista Wotzik. “Vamos de Chopin a Björk, passamos
por Cole Porter e Paul Horn, numa panorâmica diferenciada e geral da
música e escapando da folclorização”.
Concepção, pesquisa musical direção: Eduardo Wotzik
Dramaturgia: Marcos Caruso
Bailarinos: Camila Fersi, Carla Stank, Cristina Lago, Dani Calichio,
Ignácio Aldunacho, Maria Clara Sussekind, Paula Mori, Tatiana Glass
Direção de coreografia: Maria Alice Poppe / Coordenadora do CIT/Movimento: Dani Calichio
Iluminação:Fenanda Mantovani/Eduardo Wotzik
De 27 de abril a 1º de maio - Esquecidos – Coreografia e performance
solo de
Catharina Gadelha – música de René Aubry, Goran Bregovic,
Vivaldi e Patricia Dálio / Figurinos: Hans Jürgen van Almsieck /
Iluminação: Rogério Wiltgen / Projeto de Iluminação: Wolfgang Pütz e
Catharina Gadelha
Em todos os
cantos do mundo de hoje, a violência deixa sua marca devastadora; são
centenas, milhares, milhões de vítimas da violência em forma de
terrorismo, guerra civil, confronto religioso, étnico, político; a
guerra do crime, a guerra das nações. A coreógrafa e bailarina
Catharina Gadelha, nascida e criada em Brasília, de sólida carreira na
Alemanha, onde mora há quinze anos, estréia no Rio com seu solo de
dança-teatro em torno destas vítimas. Nas suas palavras, “esta é
uma peça para não esquecermos das

vitimas que não foram ou não são mais
mostradas no horário nobre da televisão”. Um lamento contra a amnésia,
a cegueira, o descaso em relação a estas vítimas esquecidas. “No
Afeganistão, no Iraque, o terror na Rússia, nas Filipinas... E antes,
durante, depois? Chile, Nicarágua, Bósnia, Kosovo, Ruanda, Libéria,
Coréia... Onde não?”
Confrontado com cenário e figurino “minimalistas, para enfatizar o
movimento e a mensagem”, como diz a intérprete, o público vai ser
convidado a participar da lembrança nesta mobilização artística. “Para
mim,dança é mais do que o movimento estético; é uma aproximação do
espectador, um convite para que ele passe a ser atuante, tome posição”,
diz Catharina, que coloca seu trabalho como a utilização do corpo como
efetivamente um instrumento de mobilização e discussão política. A
música traz, além de Aubry e Vivaldi, peças dos contemporâneos Patrícia
Dalio e Bregovic (“ele é um iugoslavo com família dos dois lados na
guerra do Kosovo, e reflete isso na música”, conta Catharina)
Catharina Gadelha nasceu em 1966, começou a dançar em 1971 e em 1991
ganhou, com sua primeira criação coreográfica, o concurso de
Coreografia de Colônia, Alemanha. Integrou, como bailarina e
coreógrafa, a Companhia de Dança Padilla de Colônia, recebendo o prêmio
Juri no concurso de coreografia de Colônia, com sua segunda
coreografia. Foi uma das fundadoras da Companhia de dança Terza e Uno,
Em 1997 foi primeira colocada no Concurso de Melhor Dança-Solo da
Alemanha, com a peça “Eu pensava que...”, de Pitkowski, na cidade de
Leipzig.
Workshop da dança-teatro no CCBB, nos dias 28 e 29 de abril , de 10 às
14h, com 4 horas diárias. Serão selecionados os 20 primeiros inscritos;
outros interessados poderão participar como ouvintes.