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Um cão uivando para a Lua |
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Written by Roney Belhassof
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Sunday, 27 March 2005 |
Em Um Cão Uivando para a Lua (1972) Antônio Torres consegue capturar um momento da nossa cultura que parece ter cunhado o Brasil de hoje.
Ler Antônio Torres é como estar dentro dos pensamentos do
protagonista sendo conduzido para a conclusão entre devaneios que tecem
um sentido cada vez mais amplo. O final não é mais importante e muito
menos mais saboroso do que o desenvolvimento. Imagine uma folha
rodopiando em um rodamoinho ao redor de uma história que poderia ser
vivida por qualquer um de nós, então você estará chegando perto de
entender porque Antônio Torres é um dos meus autores preferidos.
Em
seu livro de estréia, publicado quando tinha 32 anos, acompanhamos a
história e a vida de um jornalista que surta e vai parar no hospício.
Entre os seus devaneios surpreendentemente sãos e coerentes vamos
conhecendo sua história desde a infância. A propósito, o jornalista
surtado parece a única coisa saudável em um mundo repleto de vidas
frustradas e incoerências. É inevitável lembrar de O Alienista de
Machado de Assis, só que mais sutil, mais realista, mais atual.
Vivemos
a era das fórmulas, há livros explicando como escrever um roteiro, como
criar um conto. São regras como "conheça o final antes de escrever o
começo" ou mantenha uma linha narrativa linear e coesa. São boas formas
para escrever histórias fáceis de ler e divertidas, ou que sejam
tristes, mas possam ser lidas sem grande envolvimento pois estes não
são os tempos do envolvimento e sim os tempos das distâncias. Em Um cão
uivando apra a lua definitivamente não há fórmulas, há descoberta.
Quando
estamos diante de um grande mestre a riqueza da trama ou o desfecho
surpreendente não são a nossa única fonte de êxtase, a própria forma de
apreseentar a história já transpira arte e nos envolve como o abraço
suave dos sonhos, só que são sonhos emprestados do autor, por mais que
pareçam os nossos próprios sonhos conforme vamos lendo.
Em
contraposição a A., o jornalista que desiste do mundo temos seu amigo
T. que forma com ele uma dicotomia absolutamente cativante, não são
dois lados da mesma moeda, são duas formas de ver o mesmo lado de uma
moeda jogada no meio fio entre papéis de bala e poeira negra e grudenta
de óleo e fumaça de escapamento.
Ao contar as histórias de
A. e T.acredito que Torres foi capaz de capturar um momento crucial no
desenvolvimento do estado de espírito que hoje domina nossa sociedade:
a perplexidade diande de um mundo progressivamente sem alma e o
gradativo "apagamento" do Brasil fora das grandes cidades. Foi lá na
década de 70 que nosso país parece ter começado a se esforçar para
sonhar que era um país do primeiro mundo nem que para isso tivesse que
usar antolhos para não enxergar os mortos e feridos à beira da estrada
do progresso dos grandes centros e da elite.
Hoje os grandes centros gritam Basta, já!
mais uma vez querendo virar a cara para a injustiça social que permeia
nossa sociedade esperando que a repressão e o poder de alienação da
mídia façam tudo sumir magicamente.
Um cão uivando para a Lua é leitura obrigatória para as gentes daquele e deste tempo. |
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Last Updated ( Monday, 25 April 2005 )
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